Lasciate Ogni Speranza Voi Ch’Entrate

O Brasil é a periferia não só no capitalismo, mas também no circuito da ciência mundial. Estar situado em uma universidade do interior significa que se está na periferia da periferia, com muito mais dificuldades do que os periféricos do centro da periferia. Não há jornais ou outros meios de grande circulação e divulgação por aqui, ninguém se interessa pelo que fazemos ou deixamos de fazer e vivemos em um grande clima de “escolão de bairro“. Quem quer que deseje realizar algum trabalho cientificamente relevante nessas condições esteja preparado para um quase martírio. Desde a sabotagem explícita até as faltas de traquejo acadêmico e de uma cultura propriamente científica, seja da parte de colegas, técnicos administrativos ou alunos, passando pela inglória tarefa universal de se conseguir em meio à politicagem (de departamentos, institutos, programas de pós, FAPs da vida, CAPES e CNPq) uma bolsinha produtividade ou um caraminguá para financiar uma pesquisa, o que se vê é um sistema armado para que as coisas permaneçam como estão. Não há incentivo estatal algum para que as universidades e seus respectivos PPGs espalhados pelo interior se tornem de excelência, como na Alemanha ou nos Estados Unidos, por exemplo. Os programas que existem, como o DINTER e MINTER, além de escassos, temporários e aleatórios são para inglês ver, e não têm em seus propósitos fixar pesquisadores ou laboratórios de ponta nas universidades interioranas. Tudo o que se consegue por aqui é graças ao desempenho heroico e geralmente trágico de um ou outro indivíduo, de um ou outro pesquisador isolado, de um ou outro reitor, diretor, coordenador ou quem quer que seja disposto a enfrentar os problemas da periferia da periferia – e com isso, certamente, se inviabilizar politicamente para as próximas eleições e academicamente durante o período em que ocupar algum cargo. Nossa história, aliás, sempre foi a de concentrar todo o poder e seus derivados em pouquíssimas cidades litorâneas ou beirando o litoral. Por conta dessa estrutura capenga, raramente alguém do interior fura a bolha; quando e se a pessoa consegue furar, muito tempo ela não mais durará na universidade do interior, a não ser por motivos estritamente pessoais, pois será fatalmente tragada para uma universidade do centro, sonho inconfesso da maioria. Resta ou a adaptação à vida do interior monteiro-lobatiana, quando vai se perdendo lentamente o viço e ,de repente, deixa se envolver pela acomodação e o bicho-de-pé, ou a atitude de um Policarpo Quaresma, lutando sôfrega e incessantemente contra as saúvas devastadoras até topar com um Marechal qualquer…

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