Democratas e aristocratas da língua portuguesa

DEMOCRATAS E ARISTOCRATAS DA LÍNGUA PORTUGUESA

Ontem, depois de ter corrigido diversas provas e ter encontrado equívocos gramaticais recorrentes em todas elas, resolvi postar no Facebook uma provocação com um dos equívocos que mais se repetem, o “atravez”.
Eis que percebo, então, que a questão política em torno do uso da língua tornou-se algo central entre colegas e alunos. Alguns vieram questionar meu suposto “elitismo”, via inbox, o que me incitou a esclarecer minha posição em relação a esse ponto.
Na atualidade, vejo uma disputa gramatical entre duas correntes: as que posso denominar de forma jocosa de “democratas” e “aristocratas”.
Os “democratas” se embasam geralmente no uso pragmático da língua. Ou seja, se a língua cumpre seu papel de comunicar a mensagem, está bem, não importando muito se há equívocos gramaticais. A língua, sendo um organismo vivo e mutante ao longo do tempo, deveria comportar os distintos usos feitos pela população, pois em sua forma “morta” e codificada ela só existiria na cabeça dos gramáticos. E a história mostraria que ela de fato se modifica, sendo, desta forma, arbitrário congelá-la em sua estrutura atual e dizer o que se pode ou não.
Já os “aristocratas” defendem, antes de tudo, a adequação às regras estabelecidas em livros de gramática ou nas obras canônicas de literatura e poesia, sobretudo quando se tratar da forma escrita. Existindo uma tradição e um consenso entre os estudiosos da língua, as mudanças deveriam ser feitas com parcimônia e chanceladas pelas instituições que reúnem legitimidade para tanto.
Acredito que as duas correntes sejam limitadas e não contemplem a minha posição, apesar de não discordar completamente de algumas de suas proposições. A corrente “democrática” peca por fazer da necessidade virtude: em vez de reconhecer que o abismo social deva ser sanado, sanando-se, por conseguinte, também o abismo gramatical entre os que conhecem e os que não conhecem a norma culta, preferem estabelecer como regra a penúria. Uma coisa é um Guimarães Rosa propor formas novas a partir da escuta e da vivência dele em meio à população rural; neste caso, se trata de mudanças de vanguarda, dentro de um contexto e de um sentido bem definido por meio de um conteúdo que integra o material da obra de arte. Outra é dizermos que “seje” está correto porque muitos assim o escrevem; ou seja, o desconhecimento da maioria é dotado de um valor positivo com o fim de nós, os conhecedores, não discriminarmos os desconhecedores. Mas o mundo real continuaria dividido entre conhecedores e desconhecedores, e o arbítrio do desconhecimento seria assim chancelado; algo no mínimo estranho para ser defendido por professores…
Já o aristocratismo muitas vezes descamba, no emprego daqueles que conhecem a norma culta, para um esnobismo social. Ou seja, ao ridicularizarem os menos afortunados da vida que cometem os famosos equívocos gramaticais, a língua é utilizada para reforçar as distinções entre conhecedores e desconhecedores. Geralmente, o aristocratismo se aferra às normas não por amor à língua, mas pelo amor que as pessoas têm pela sua posição social; sabendo mais do que os “ignorantes”, se veem como naturalmente “melhores”, e aqui se encontra a outra forma de arbítrio sendo instituída: o da forma pela forma, que ao desconhecer de modo consciente os arbítrios dos usos da língua e suas raízes sociais, faz dela um objeto de distinção e de deleite ossificado.
Minha posição, no meio dessa guerra, é a de que, por um lado, todas as pessoas deveriam conhecer a norma culta, pois se trata de um patrimônio universal cujo acesso foi negado à maioria por conta da divisão de classes da sociedade capitalista. Aí me aproximo dos “aristocratas”. Por outro lado, me aproximo dos “democratas”: conhecendo a norma culta, aí sim as pessoas poderiam propor novos usos, novas formas e tensionar todo o existente. E aqui me distancio dos dois lados: sem esse conhecimento universal, continuamos com uma minoria de eruditos se apropriando dos usos populares para fazer algo de relevante. Pior ainda; os pretensos porta-vozes da maioria são, em regra, os que conhecem perfeitamente as normas cultas. Chancelando os equívocos, guardam para si a norma, em vez de tentarem universalizá-la. Já dentre os “aristocratas”, cabe denunciar o sentido ridículo do emprego da língua como forma de distinção social. Ao final, o que se vê dos dois lados são disputas de intelectuais que não tocam no ponto central: na péssima distribuição de conhecimento entre a população. Uns querem se erigir como porta-vozes e chanceladores da miséria (“democratas”), ao passo que os outros querem apenas chancelar a naturalização da miséria por conta de seus saberes (“aristocratas”). Ambos os lados se dão as mãos. O mundo é bem mais complexo do que qualquer fla-flu.

 

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