Miguel ford Brasílio, Brasílio ford Miguel

Corre pelas redes sociais uma crítica a um texto que o Prof. Brasílio Sallum Junior, do Dep. de Sociologia da USP, publicou no Estadão no dia 22/08/2019. Texto este completamente equivocado, de fato, em minha opinião – assim como desde há muitos anos vêm sendo as posições políticas do Brasílio, um ótimo professor, intelectual e dono de exímio caráter, diga-se de passagem. No entanto, embora compartilhe do conteúdo das críticas ao texto, não acho que devamos personalizar certas questões. Sobretudo porque para muito além das bobagens que o Brasílio ou o X ou o Y dizem diuturnamente na imprensa em geral, existe algo estrutural e impessoal muito mais daninho que habita quase todas as posições do espectro político brasileiro, desde a direita da direita, da qual o Brasílio definitivamente não faz parte, até a esquerda da esquerda, da qual um monte de pretensos salvadores da pátria fazem parte. A grande questão começou quando o movimento de independência das ciências sociais brasileiras, em curso desde pelo menos a década de 1930, foi abortado pelo golpe de 1964. Estou falando do expurgo da universidade e da interrupção do trabalho desenvolvido por intelectuais do calibre de Florestan Fernandes, Guerreiro Ramos, Sergio Buarque de Hollanda etc. Ou seja, daqueles que logravam criar, cada um dentro de sua particularidade, um modo específico e profundamente nacional de enxergar e conhecer os nossos problemas sociais. Instrumentais teóricos, analíticos e conceituais esmerados à luz de apropriações inventivas e críticas dos autores clássicos europeus e norte-americanos davam vida à teoria do subdesenvolvimento, à do capitalismo periférico, à teoria da dependência, dentre outras contribuições nativas fundamentais cunhadas nesse momento pré-1964.

Ora, após esse instante de breve glória vimos o desmonte de uma ciência de alto nível sendo posto em marcha pelos militares. Novas instituições foram então fomentadas em torno dos Programas de Pós-Graduação e da tentativa de expansão do ensino superior. Não por acaso é dessa época em que datam as primeiras instituições financiadas pela Fundação Ford, como o IUPERJ, o Departamento de Ciência Política da UFMG, o CEBRAP, o PPGAS do Museu Nacional etc. Dentro de suas diferenças, que não eram poucas, podia ser visto um princípio de unidade, que depois se alastrará como um rastilho de pólvora em meio a todos os centros de estudos de ciências sociais: uma visão normativa tácita que pressupunha a dissociação entre a política e o sistema econômico. Em outras palavras, teorias e conceitos que buscassem articular a realidade local, institucional, racial, educacional, cultural etc. ao concerto do capitalismo mundial caíam em desuso; a “democracia” em abstrato era a meca, um fim quase natural a que deveríamos aspirar, e o regime de exceção contribuía e muito para que qualquer coisa figurasse melhor do que aquilo que existia. Qualquer coisa, frise-se novamente, financiada econômica e conceitualmente pela Fundação Ford. E como diria um dos célebres conterrâneos de Henry Ford, não existe jantar gratuito no capitalismo…

Tudo aquilo de melhor que havia sido feito em termos de uma ciência genuinamente nacional, sobretudo por meio dos tão distintos, mas irmanados nesse aspecto Escola Uspiana de Sociologia e ISEB, deveria ser deixado de lado. Uma doxa então foi se estabelecendo paulatinamente nas ciências sociais: cabia a busca pelo estabelecimento de instituições políticas democráticas burguesas e pensar como uma verdadeira democracia poderia vir a fincar terreno entre nós em uma eventual pós-ditadura. Mas de qual democracia estamos falando? Aquela das instituições… a das instituições que estão funcionando. Que sempre, figurativamente e para a mídia, estão funcionando. Para quem ou para que não importa; importa que estejam funcionando. O conceito outrora tão caro e organicamente articulado às ciências sociais brasileiras teve de ser apagado das novas ciências sociais fordistas-brasileiras, ou ao menos deixado de lado para o deleite de extravagantes marxistas: estou falando aqui do conceito de capitalismo. A luta contra a ditadura, ditadura esta financiada pelos EUA, encontrava (nem tão) contraditoriamente a mão dos mesmos EUA a nos guiar para fora dela. O que faríamos então com a tal liberdade? Atrelaríamos nosso pensamento ao cabresto teórico e conceitual pelo qual o fordismo logrou nos moldar, azeitando as nossas melhores inteligências nacionais com bolsas e doutorados em território yankee.

Logo mais à frente a Anpocs, a Anpuh, a Anpof, quase todas as instituições e revistas científicas feministas e de estudos de gênero, bem como quase todo o movimento negro foram dócil e fartamente bancados pela mesma Fundação Ford. Não seria exagero dizer que a Ford praticamente recriou, à imagem e semelhança que bem lhes aprouvesse, a ciência social de ponta nacional. Com contrapartidas, claro: a cegueira em se achar que se pode atingir um patamar de civilização no capitalismo periférico apenas por meio de instituições políticas democráticas e seus aperfeiçoamentos. Eis a constante, quase uma lei natural a guiar os mantras de nossos cientistas políticos, antropólogos e sociólogos desde então. Da esquerda à direita, de norte a sul, dos mais diversos “lugares de falas” ou de posições minoritárias “empoderadas” víamos o léxico fordista, a problemática norte-americana impondo-se já de saída em nossos raciocínios. As soluções estavam dadas de antemão: sempre cabe buscar a inclusão nos moldes da democracia burguesa. Aliás, “lugar de fala”, “empoderamento”, “minorities” são as formas pelas quais quase todos os candidatos a mestres em ciências sociais são obrigados a pensar o mundo em nossos PPGs de hoje, haja vista o pensamento único recoberto pelos lemas do catecismo científico norte-americano ser a porta de entrada a quem ainda queira ser chamado de razoável e levado a sério.

Muito mais deletério do que o Brasílio dizer bobagens liberais que ele e vários outros há muito tempo dizem é ver uma esquerda bem-intencionada, engolfada exatamente nas mesmas malhas ideológicas do polo pretensamente oposto. O arroto de superioridade não torna ninguém melhor do que o outro quando, na verdade, ambos os lados não reúnem condições de entender que a barbárie não é uma excrescência do capitalismo nem uma “falha”, uma “doença”, Eliane Brum, da democracia burguesa de um país como o Brasil – pelo contrário, ela é a sua mais pura encarnação e normalidade. Esquecer que nos posicionamos em um capitalismo periférico, que o capitalismo ainda existe, que aqui ele toma forma própria, que é ele quem articula todo o nosso universo simbólico e material e que o imperialismo nunca tirou de nós a sua garra é o preço a se pagar para quem se ludibriou achando que bastavam instituições democráticas e uma constituição cidadã embaixo do braço para nunca mais termos que encarar a nossa verdade. Se há algo de bom no que está acontecendo é que Bolsonaro e sua gangue nos fizeram despertar de vários ledos enganos. O que não sabemos é o que, nem como, nem se dá para fazer algo antes que eles arrasem tudo o que restava do Brasil: até mesmo as autoilusões de seus intelectuais.

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AS LÓGICAS SOCIAIS DO GOSTO

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CAROLINA PULICI, DMITRI FERNANDES

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DESCRIÇÃO
“Gosto é gosto, não se discute” e “Tem gosto para tudo neste mundo” são provérbios que remontam aos séculos passados e continuam sendo repetidos e comentados. Com variantes em muitas línguas e países, tais provérbios poderiam dar a entender que cada indivíduo tem seus próprios gostos, que os gostos são arbitrários e que não há nada mais individual e menos transmissível que o gosto. Apesar disso, As Lógicas Sociais do Gosto mostra que os gostos são menos submetidos às lógicas individuais do que às lógicas sociais e de distinção, e mesmo às lógicas econômicas. No contexto atual, em que se observa um crescimento acentuado das desigualdades e das clivagens sociais, dos constrangimentos de ordem econômica, do mercado, da indústria cultural e das mídias, as observações e análises dos autores deste livro são particularmente pertinentes e instigam a reflexão.

FICHA TÉCNICA

Assunto: Sociologia, Estética, Hábitos de consumo
Ano: 2019
Acabamento: Brochura
Páginas: 328
Edição: 1ª
ISBN:  9788555710445
Peso: 0.510 Kg
Formato: 16×23

Lasciate Ogni Speranza Voi Ch’Entrate

O Brasil é a periferia não só no capitalismo, mas também no circuito da ciência mundial. Estar situado em uma universidade do interior significa que se está na periferia da periferia, com muito mais dificuldades do que os periféricos do centro da periferia. Não há jornais ou outros meios de grande circulação e divulgação por aqui, ninguém se interessa pelo que fazemos ou deixamos de fazer e vivemos em um grande clima de “escolão de bairro“. Quem quer que deseje realizar algum trabalho cientificamente relevante nessas condições esteja preparado para um quase martírio. Desde a sabotagem explícita até as faltas de traquejo acadêmico e de uma cultura propriamente científica, seja da parte de colegas, técnicos administrativos ou alunos, passando pela inglória tarefa universal de se conseguir em meio à politicagem (de departamentos, institutos, programas de pós, FAPs da vida, CAPES e CNPq) uma bolsinha produtividade ou um caraminguá para financiar uma pesquisa, o que se vê é um sistema armado para que as coisas permaneçam como estão. Não há incentivo estatal algum para que as universidades e seus respectivos PPGs espalhados pelo interior se tornem de excelência, como na Alemanha ou nos Estados Unidos, por exemplo. Os programas que existem, como o DINTER e MINTER, além de escassos, temporários e aleatórios são para inglês ver, e não têm em seus propósitos fixar pesquisadores ou laboratórios de ponta nas universidades interioranas. Tudo o que se consegue por aqui é graças ao desempenho heroico e geralmente trágico de um ou outro indivíduo, de um ou outro pesquisador isolado, de um ou outro reitor, diretor, coordenador ou quem quer que seja disposto a enfrentar os problemas da periferia da periferia – e com isso, certamente, se inviabilizar politicamente para as próximas eleições e academicamente durante o período em que ocupar algum cargo. Nossa história, aliás, sempre foi a de concentrar todo o poder e seus derivados em pouquíssimas cidades litorâneas ou beirando o litoral. Por conta dessa estrutura capenga, raramente alguém do interior fura a bolha; quando e se a pessoa consegue furar, muito tempo ela não mais durará na universidade do interior, a não ser por motivos estritamente pessoais, pois será fatalmente tragada para uma universidade do centro, sonho inconfesso da maioria. Resta ou a adaptação à vida do interior monteiro-lobatiana, quando vai se perdendo lentamente o viço e ,de repente, deixa se envolver pela acomodação e o bicho-de-pé, ou a atitude de um Policarpo Quaresma, lutando sôfrega e incessantemente contra as saúvas devastadoras até topar com um Marechal qualquer…

Democratas e aristocratas da língua portuguesa

DEMOCRATAS E ARISTOCRATAS DA LÍNGUA PORTUGUESA

Ontem, depois de ter corrigido diversas provas e ter encontrado equívocos gramaticais recorrentes em todas elas, resolvi postar no Facebook uma provocação com um dos equívocos que mais se repetem, o “atravez”.
Eis que percebo, então, que a questão política em torno do uso da língua tornou-se algo central entre colegas e alunos. Alguns vieram questionar meu suposto “elitismo”, via inbox, o que me incitou a esclarecer minha posição em relação a esse ponto.
Na atualidade, vejo uma disputa gramatical entre duas correntes: as que posso denominar de forma jocosa de “democratas” e “aristocratas”.
Os “democratas” se embasam geralmente no uso pragmático da língua. Ou seja, se a língua cumpre seu papel de comunicar a mensagem, está bem, não importando muito se há equívocos gramaticais. A língua, sendo um organismo vivo e mutante ao longo do tempo, deveria comportar os distintos usos feitos pela população, pois em sua forma “morta” e codificada ela só existiria na cabeça dos gramáticos. E a história mostraria que ela de fato se modifica, sendo, desta forma, arbitrário congelá-la em sua estrutura atual e dizer o que se pode ou não.
Já os “aristocratas” defendem, antes de tudo, a adequação às regras estabelecidas em livros de gramática ou nas obras canônicas de literatura e poesia, sobretudo quando se tratar da forma escrita. Existindo uma tradição e um consenso entre os estudiosos da língua, as mudanças deveriam ser feitas com parcimônia e chanceladas pelas instituições que reúnem legitimidade para tanto.
Acredito que as duas correntes sejam limitadas e não contemplem a minha posição, apesar de não discordar completamente de algumas de suas proposições. A corrente “democrática” peca por fazer da necessidade virtude: em vez de reconhecer que o abismo social deva ser sanado, sanando-se, por conseguinte, também o abismo gramatical entre os que conhecem e os que não conhecem a norma culta, preferem estabelecer como regra a penúria. Uma coisa é um Guimarães Rosa propor formas novas a partir da escuta e da vivência dele em meio à população rural; neste caso, se trata de mudanças de vanguarda, dentro de um contexto e de um sentido bem definido por meio de um conteúdo que integra o material da obra de arte. Outra é dizermos que “seje” está correto porque muitos assim o escrevem; ou seja, o desconhecimento da maioria é dotado de um valor positivo com o fim de nós, os conhecedores, não discriminarmos os desconhecedores. Mas o mundo real continuaria dividido entre conhecedores e desconhecedores, e o arbítrio do desconhecimento seria assim chancelado; algo no mínimo estranho para ser defendido por professores…
Já o aristocratismo muitas vezes descamba, no emprego daqueles que conhecem a norma culta, para um esnobismo social. Ou seja, ao ridicularizarem os menos afortunados da vida que cometem os famosos equívocos gramaticais, a língua é utilizada para reforçar as distinções entre conhecedores e desconhecedores. Geralmente, o aristocratismo se aferra às normas não por amor à língua, mas pelo amor que as pessoas têm pela sua posição social; sabendo mais do que os “ignorantes”, se veem como naturalmente “melhores”, e aqui se encontra a outra forma de arbítrio sendo instituída: o da forma pela forma, que ao desconhecer de modo consciente os arbítrios dos usos da língua e suas raízes sociais, faz dela um objeto de distinção e de deleite ossificado.
Minha posição, no meio dessa guerra, é a de que, por um lado, todas as pessoas deveriam conhecer a norma culta, pois se trata de um patrimônio universal cujo acesso foi negado à maioria por conta da divisão de classes da sociedade capitalista. Aí me aproximo dos “aristocratas”. Por outro lado, me aproximo dos “democratas”: conhecendo a norma culta, aí sim as pessoas poderiam propor novos usos, novas formas e tensionar todo o existente. E aqui me distancio dos dois lados: sem esse conhecimento universal, continuamos com uma minoria de eruditos se apropriando dos usos populares para fazer algo de relevante. Pior ainda; os pretensos porta-vozes da maioria são, em regra, os que conhecem perfeitamente as normas cultas. Chancelando os equívocos, guardam para si a norma, em vez de tentarem universalizá-la. Já dentre os “aristocratas”, cabe denunciar o sentido ridículo do emprego da língua como forma de distinção social. Ao final, o que se vê dos dois lados são disputas de intelectuais que não tocam no ponto central: na péssima distribuição de conhecimento entre a população. Uns querem se erigir como porta-vozes e chanceladores da miséria (“democratas”), ao passo que os outros querem apenas chancelar a naturalização da miséria por conta de seus saberes (“aristocratas”). Ambos os lados se dão as mãos. O mundo é bem mais complexo do que qualquer fla-flu.

 

Sentinelas da Tradição: à venda

FERNANDES_ST_CAPA_FINAL-1Dmitri Cerboncini Fernandes analisa as construções e disputas simbólicas que forjaram o que conhecemos como samba, choro e pagode. Apoiando-se em uma perspectiva interdisciplinar, dirige seu olhar para esses gêneros musicais em particular, e para a música em geral, movendo conhecimentos e metodologias aplicados não só em sua área de formação, a sociologia, mas também na história e na etnomusicologia. A proposta do autor é que o debate sobre a música não seja desvinculado dos estudos sobre política, transformações e evoluções socioeconônimas do Brasil; assim, discute as representações conflitantes desse universo por meio do estudo das trajetórias e das obras de figuras célebres ou ignoradas e subestimadas, como cronistas, jornalistas, produtores, empresários, intérpretes, músicos e intelectuais.

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